Meu advogado, de maneira unilateral, decidiu que a audiência conciliatória não era de nosso interesse. Quando o questionei sobre o motivo de não ter me avisado que a Renault queria fechar um acordo, ele disse que, na sua experiência, os valores propostos normalmente são muito menores do que poderemos ganhar se deixarmos o processo seguir.

Pode até ser. Mas minha reação foi de irritação. Afinal, e se eu estivesse precisando de dinheiro? Respondi que provavelmente iria seguir sua recomendação. Esperei até agora, então o que são mais alguns meses. Mas, ao menos, gostaria de saber qual teria sido a proposta, para depois decidir em conjunto. Uma rápida mensagem de celular teria resolvido o assunto.

A minha experiência com advogados, e a experiência de familiares e amigos em 90% dos casos que eles têm na Justiça, me leva a perceber que existe uma grande falha na maneira como esses profissionais se comunicam com seus clientes. Ou melhor, como não se comunicam.

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Pelo menos uma vez por mês entro no site do Tribunal de Justiça de São Paulo para acompanhar o processo. Recentemente percebi uma nova atualização do meu caso, um registro que até uns dois meses atrás não havia aparecido – Processo em Grau de Recurso.

Apareceu um novo link, agora para visualizar o processo em segunda instância. Entre os novos desdobramentos que não havia visualizado até então, havia um do dia 20 de janeiro. Informava sobre um interesse em conciliação. Será que a Renault queria fechar um acordo e encerrar o processo?

No dia 6 de fevereiro teve um registro chamado “Expedido Certidão”. Lá constava que o despacho foi disponibilizado no DJE (Diário de Justiça Eletrônico). O apelado, eu, deveria se manifestar acerca de interesse na designação de audiência conciliatória. Voltei para o site do Tribunal de Justiça para consultar o despacho seguinte. O do dia primeiro de março falava sobre o fim do prazo sem que a manifestação tivesse ocorrida.

Sem saber ao certo o que aconteceu, enviei um e-mail para o meu advogado com essas dúvidas, que limitou-se a responder que o processo está aguardando decisão do relator. Voltei a enviar uma mensagem perguntando sobre este interesse de conciliação e sobre o motivo de não termos nos manifestado. Estratégia? Espero que sim.

Depois da decisão favorável do juiz em outubro, em parte, a Renault contestou. Eu já aguardava esse movimento. O que eu não esperava era a demora da Justiça para avaliar o recurso. No dia 7 de dezembro do ano passado, segundo o jargão, os autos foram remetidos para o Colégio Recursal. Estamos quase na metade de maio e não consta mais nenhuma movimentação.

O processo está parado há cinco meses. O Episódio 1 deste blog foi escrito no dia 29 de agosto de 2013, embora a saga tenha começado alguns meses antes, no dia 12 de maio daquele ano, com o primeiro problema mecânico do Sandero. Quatro anos atrás já. Continuo esperando a situação se resolver. Obrigado Renault.

Em fevereiro deste ano o laudo foi finalizado. Depois de quase dois anos e dezenas de idas à oficina, o perito nada observou que pudesse comprometer o funcionamento do veículo.

Durante todo esse tempo eu continuei a levar o carro para as revisões programadas, aka, “pague você mesmo a garantia de 3 anos que a fabricante te oferece”. E em todas as vezes eu mencionei o problema. Ainda bem que fiz minha parte. Leiam o despacho do juiz no último dia 3 de outubro.

Ante o exposto e tudo o mais que dos autos consta, julgo IMPROCEDENTE o pedido redibitório a vista de que os vícios do veículos foram sanados pela concessionária, e o pedido de indenização por danos materiais.Outrossim, julgo PROCEDENTE o pedido de indenização por danos morais e condeno as rés, solidariamente, a pagar indenização por danos morais ao autor em valor que arbitro em R$ xx.xxx,xx (xx mil reais), valor a ser corrigido a partir desta decisão e juros de mora a partir da citação. O autor decaiu de parte do pedido, contudo, pelo princípio da causalidade, condeno as rés ao pagamento das custas, despesas processuais e honorários advocatícios que fixo em 20% da condenação, nos termos do artigo 85 do Código de Processo Civil”. (obs: sim, x mil reais. Uma férias de final de ano divertida…digo, quando sair o dinheiro, ou mesmo se sair).

Em outras palavras, minha ação foi julgada procedente em parte. Fico pensando como alguém pode achar que é seguro continuar a rodar com um carro com problemas e que o tempo entre eu apontar o problema e ele ter sido, teoricamente, solucionado, não constituiu um risco. Minha dor de cabeça sempre foi menor que o medo de que algo pudesse acontecer. Enfim. Pelo menos agora tenho o “em parte”.

Mas claro que a saga não acabou. Em novembro, obviamente, a Renault apelou contra a decisão. A questão continua a ser: venda-se a quantidade de produtos que puder e coloque uma banca de advogados para se defender de eventuais problemas. Certamente deve ser mais lucrativo que um bom relacionamento com seus clientes.

O laudo não sai este ano. O recesso do judiciário e mais algumas coisas que o perito precisa fazer jogaram a conclusão para o começo do ano que vem. Muito provavelmente começo de fevereiro.

Mas é claro que o carro não apresentou o barulho no freio quando o perito foi fazer o teste de rodagem ontem, segunda-feira. As constantes falhas na ignição também não mostraram as caras. O desgaste do disco de freio, ao que consta, não era exagerado. E o scan que passaram na injeção não tinha registro de falha.

Tal como sempre aconteceu, não era algo diário, mas o barulho estava lá. Com frequência eu também preciso de três ou quatro tentativas pra ligar o veículo. Meu amigo fez as seguintes observações: “falei com o perito que, como o defeito é intermitente, para ele levar isso em consideração na elaboração no laudo, e que uma volta de 10Km, as vezes, não era suficiente para o defeito aparecer. Espero que ele leve isso em conta no laudo. De resto, identifiquei que tem um vazamento de óleo de motor pelo bujão do cárter e tem um início de vazamento de óleo no compressor do ar-condicionado. Seria bom você verificar se esta garantia ainda, pois se tiver acho que seria bom ver isto”.

O carro tem dois anos, sou super cuidadoso, faço todas as revisões, e já está apresentando defeito de carro velho. Surpresa minha? Claro que não!

Mas agora é esperar o perito cruzar referência com todas as dezenas de ordens de serviço destes dois últimos anos, verificar todas as vezes que a Renault disse ter polido, trocado pastilha e trocado o disco de freio, bem como as vezes em que a injeção precisou ser reprogramada e avaliar se o desgaste condiz com a quilometragem (suponho que ele fará isso).

Seja como for, o carro será vendido. A ideia agora é trocar por um novo, de outra marca, é claro. E se realmente o laudo não apontar problema técnico, então pelo menos não fico com peso na consciência de passar o Sandero pra frente. Quanto aos gastos com honorários, paciência. Como diria minha vó: o que não tem solução, solucionado está.

A perícia está marcada para daqui uma hora. Não poderia levar o carro, então pedi para meu amigo mecânico levar, já que ele iria de qualquer maneira. Eis que ele me liga para avisar que estava a caminho e para me informar que o Sandero estava sem estepe.

Como o estepe fica para fora do carro, embaixo do porta-malas, é muito comum roubarem, ele disse. Só na sua oficina, pelo menos uma vez por semana aparece um Sandero sem estepe. Não sabia dessa questão. E também acabei de perceber que preciso melhorar a frequência com que avalio este ítem básico do meu carro. No caso do Renault Sandero, vai ter que ser toda vez que estacionar o carro em qualquer local que não seja a garagem minha casa. Mais um problema agradável para se preocupar com esse modelo da Renault. 

A perícia, afinal, será realizada na oficina da Renault Valec, na Avenida John Boyd Dunlop, em Campinas-SP. A concessionária é a mesma onde comprei o meu Sandero e a oficina é a mesma onde já levei o carro diversas vezes para tentar resolver o problema no freio.

Para quem começou a acompanhar o blog agora, uma breve recapitulação: Comprei o carro em abril de 2013. Com poucas semanas de uso percebi um barulho no freio (além da partida, que falhava toda hora). A Renault dizia que iria arrumar o barulho, eu levava o carro à oficina, ela dava uma mexidinha aqui e alí mas nunca resolveia problema. Reclamei, tentei Procon e nada. Então entrei com um processo, em dezembro de 2013, para devolverem meu dinheiro. Depois de dois anos finalmente um perito, indicado pelo juíz do caso, irá avaliar o veículo.

Primeiramente escolhi uma oficina de outra concessionária Renault em Campinas, mas seria complicado pedir autorização, talvez pagar pra usar os equipamentos e tal. Os advogados da Renault sugeriram que a perícia fosse realizada na própria oficina da concesisonária Valec. Fiquei com receio, mas meu amigo mecânico disse que quem faz todo o trabalho é o perito, e que outras pessoas podem apenas observar, que é o que ele vai fazer por mim. Em outras palavras, tanto faz onde o trabalho será realizado. Além disso, meu advogado também estará presente. Então, para a escolha da oficina não virar outra novela, aceitei que fosse na casa do adversário.

Segunda-feira terei a palavra final. Se o resultado for favorável a mim, isto é, se o perito concluir que de fato há defeito de fábrica, não só vou querer meu dinheiro de volta, mas também vou pedir indenização por toda a dor de cabeça desses dois últimos anos. Só espero que o perito realize um bom trabalho.